Reflexão sobre a relação das pessoas com a informação científica na pandemia
A pandemia nos trouxe novas reflexões em muitos âmbitos. Uma não tão nova, mas sempre relevante é sobre a relação das pessoas com o conhecimento, atividade e produções da ciência. Desde 2013 o debate político se polarizou de forma cada vez mais extrema, tendência que o Brasil seguiu a partir do exemplo de países do norte. Combinando a polarização política com uma pandemia, uma relação circular se cria: o pânico gerado pela incerteza da pandemia é aliviado pelas certezas que a lógica conspiracionista da polarização traz. É claro que a polarização não tinha nenhum motivo para ser suprimida nessa situação. Isso, evidente, interfere na forma como a sociedade interpreta e compreende o conhecimento produzido no âmbito científico. A informação é o insumo mais básico para opinião. Entretanto, muitas vezes a informação é incompleta ou simplesmente mentirosa. O que parece é que, reconhecer uma informação que se encaixa perfeitamente nas suas ideias já estabelecidas como mentirosa ou incompleta é um desafio constante, pois não tendemos a verificar com tanto afinco aquilo que concorda com o que já acreditamos. Aqui, eu vou refletir sobre três pontos que me parecem merecer atenção:
No início, as pessoas tiveram uma relação confusa a partir do que era possível ou impossível prever acerca da epidemiologia do novo Corona Vírus e privilegiavam somente as informações que corroboravam com o que elas desejavam: que aquela doença não afetasse suas rotinas. Ouvimos coisas como: 'mas o Brasil é quente e estaremos no verão', 'mas já aguentamos esgoto, água podre, dengue e Marcelo Crivella, o Corona não vai nos afetar', "vamos isolar o grupo de risco e seguir com a vida normal", dentre outras falas. Daí vem o primeiro sinal de alerta dessa relação das pessoas com o conhecimento produzido no âmbito científico. A ciência é, em muitos casos, descritiva. Nesses casos, ela descreve os fenômenos naturais que já aconteceram, não os produz. Além disso, ela só consegue realizar predições quando a descrição de um fenômeno já é satisfatória, robusta. E veja: descrever demanda tempo, amostragem significativa, reprodução e repetição. Até agora, passados 8 meses do surgimento do primeiro caso, ainda sabemos pouco sobre aspectos epidemiológicos, vida-útil do vírus, e tantos outros fatores. Entender o tempo e dinâmica da produção do conhecimento científico é essencial para não confundir o que você deseja que aconteça com o que pode acontecer, dado o que a gente sabe e o que a gente ainda não sabe. A capacidade de predição, no caso do corona, está sendo muito limitada. Afinal de contas, é uma doença nova, com um novo genoma e sabemos que um grupo muito pequeno de genes pode afetar todo aspecto epidemiológico de uma doença, o que dificulta que comparemos seu comportamento e disseminação com o de outras doenças que já conhecemos há mais tempo. Então para a ciência entender sobre como esse novo vírus se comporta, está sendo preciso aprender com ele dia após dia. Sempre um passo atrás.
A partir dos conhecimentos que vamos produzindo, condensados e organizados em artigos preliminares, o viés cognitivo da confirmação tende a agir na maioria das pessoas. Muitos desses estudos são divulgados por publicações de veículos de comunicação e assim chegam à massa da população através de uma transposição de linguagem, que é importante. Se for bem feita, a qualidade da informação garante um entendimento real do que, como e porque aquilo foi feito. Só que, chegando às pessoas, a adesão aos fatos apresentados parece independente da qualidade da informação e mais relacionada com as crenças pré-estabelecidas, que na maioria das vezes, estão baseadas em orientações políticas. Por exemplo: a decisão sobre receitar hidroxicloroquina passou a ser de um coletivo de pessoas sem nenhuma formação médica, em vez da interpretação de um condensado de estudos que tinham conclusões convergentes sobre o assunto. Isso, pois quando um debate científico é ideologizado (o que é diferente de fazer recortes sociopolíticos, que fique claro), uma opinião desqualificada tem o mesmo peso que uma opinião qualificada. E dessa forma, um colóquio entre o presidente e um médico, por exemplo, tem o mesmo peso (ou maior) do que a opinião de um conjunto denso de especialistas ou da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Agora, sobre a extensão do que foi dito pelas pesquisas, outra questão emerge: a maioria dos estudos e ensaios produzidos em relação ao CoV-SARS-2 é preliminar. Isso pois, para ser consolidada e reconhecida, uma tese passa por uma produção coletiva, revisão de pares no momento da publicação, escrutínio da comunidade científica, questionamentos e ver se ela se sustenta através do tempo, ou seja, se nada que a contradiga é encontrado. Em muitos casos, teses merecem revisão ou até a completa reformulação. A maioria é preliminar pois não há tempo de passar por tudo isso, por enquanto. Pessoas estão morrendo agora e precisamos acelerar certos procedimentos. Isso significa que os estudos são feitos de qualquer forma? Longe disso. Muitos dos critérios que conferem fiabilidade a essas informações são mantidos, só adiamos alguns deles para um momento que demande menos urgência, onde possamos analisar essas informações com mais calma, olhando a big picture. Por isso, eles ganham uma tag imensa [PRELIMINAR]: pra que ninguém esqueça disso, em momento algum. Diante disso, não se deve habitar nenhum dos dois extremos: nem desacreditar completamente a validade desses conhecimentos, nem transformá-los em postulados. Por exemplo, os apontamentos das pesquisas e dos especialistas sobre a efetividade das máscaras são ditas com cuidado: "as máscaras reduzem o contágio", "o uso de máscara não é a forma mais eficaz de prevenir contra a COVID-19", "o uso de máscaras, combinado com distanciamento social e higiene são medidas importantes para reduzir a disseminação do vírus". Muitas dessas informações, num efeito telefone-sem-fio, tem seu significado reduzido a frases generalistas ('postulados') que alteram a intenção da fala original, seja para um lado, quanto para outro, como exemplifica essa imagem que viralizou no facebook na última semana.
Imagem retirada do Facebook
Quando eu disse que as frases são reduzidas, me referi especificamente ao quão direta elas se tornam, mas a questão é que ao se tornarem 'diretas', elas chegam à conclusões que transbordam àquelas realizadas nos estudos. É uma redução que transborda, sabe? Imprudente, portanto. A polarização política, que respondeu 'bem' à novas demandas trazidas pela pandemia, certamente se coloca como inimiga de outro ponto que emerge com tanta ou mais potência nesses tempos: a importância de fazer interpretações moderadas dos fatos, a partir dos conhecimentos produzidos pelas ciências. Guiar-se pela parcimônia. Reflito e deixo a reflexão: qual será o legado desses tempos para a nossa relação com o conhecimento científico? Qual será o papel desse conhecimento na cultura desse questionável 'novo normal'?

Comentários
Postar um comentário