A TECNOLOGIA QUE  PERMEIA  A  COMUNIDADE  FICTÍCIA DE  BACURAU
Mestrando: José Henrique Cereja



A arte apresenta-se como um aliado potencial ao processo educativo, de forte apelo ao melhor desenvolvimento do conhecimento e, nesta oportunidade, o uso de filmes pode ser uma estratégia bastante interessante e enriquecedora à experiência de ensino e aprendizagem. Com isso, podemos reconhecer que os conhecimentos e os saberes presentes dentro destas películas podem surgir como uma maneira visual de ensinar utilizando uma tecnologia que, além de entreter, ainda pode permitir que o aluno elabore uma profunda reflexão sobre a realidade que o cerca. 
O Cinema, a serviço deste propósito, surge como um belo recurso audiovisual que possui uma enorme capacidade de desenvolvimento de diversos conteúdos que, de forma mais rápida e intensa, possibilita a compreensão imagética dos fatos. Trata-se de uma significativa leitura das imagens que ali se apresentam. Sendo assim, o foco deste debate é destacar um ponto evidente dentro do Filme brasileiro Bacurau que está diretamente conectado ao desenvolvimento científico tecnológico, apresentando-se neste caso, como uma possível e enriquecedora possibilidade de reflexão aos interessados sobre a maneira que o conhecimento científico e a tecnologia podem afetar a Sociedade.
O cenário deste longa-metragem premiado é o sertão nordestino e, mais especificamente, o oeste de Pernambuco, onde a história acontece e onde está a fictícia Bacurau que leva o nome do animal de hábitos sorrateiramente noturnos. É exatamente neste local que se observa um forte contraste socioeconômico entre a pobreza da comunidade de Bacurau e a presença da tecnologia que salta aos olhos, a começar pela abertura da obra. Ao longo da projeção, Tablets, celulares, televisões e internet fazem parte da vida dos moradores de Bacurau assim como a espera pelo caminhão pipa que lhes leva água e da eterna necessidade por comida e remédios. A realidade ali é cruelmente de abandono e isolamento, apesar do paradoxo dos meios de comunicação que aparecem ao longo do filme.
o Drone de Bacurau

Caso você ainda não tenha assistido Bacurau, veja o quanto antes. Isso fornecerá propriedade à discussão e às futuras reflexões sobre o que é proposto aqui, pois toda contribuição aos debates será muito bem recebida. Portanto, fazendo uma viagem de retorno e passando a acompanhar alguns personagens na comunidade de Bacurau, averígua-se que o grupo comunitário de repente descobre que o carro pipa, que chegava para fornece-lhes água, estava cravado de balas e é justamente neste instante que fica evidente que os moradores utilizam celulares para se comunicar. 
Os celulares são usados ali para a troca de arquivos e informações numa conexão claramente comunicativa de proteção. Na projeção é observada também a distribuição de telas de monitores pelas cenas, como num caminhão de abertura que nos apresenta a primeira personagem que nos levará aos demais. Mais à frente,durante o desenrolar da história, um novo personagem surge na trama: eis que aparece de forma curiosa e posteriormente revelada um Drone na forma de disco-voador que, em seguida, é controlado pelo grupo de forasteiros que estão prestes a invadir a comunidade.

Num determinado momento da projeção da película, o professor da comunidade, o Seu Plínio, encontra-se reunido com sua pequenina turma pelo lado de fora da escola, procurando pela localização de Bacurau ao manusear um tablet. Consequentemente nota-se uma aglomeração formada ao redor dele pelos discentes, tamanha curiosidade despertada pela sua iniciativa. Para surpresa do personagem e dos seus alunos, pasmem, que o lugar não é mais localizado no mapa/gps do tablet, frustrando a todos e forçando o professor a retornar ao velho método do uso de mapa físico. Estariam os diretores, o que ficou evidenciado na cena, marcando a resistência desta comunidade numa alegoria na forma de tecnologia? Seria uma resistência na forma de tablete, numa realidade extremamente carente de tudo tanto da escola quanto da comunidade em si?
Ao longo da projeção do filme, surgem algumas observações que podemos levantar para debatermos no que tange ao Campo CTS e o Ensino de Ciências ao verificarmos a presença de equipamentos tecnológicos, paradigmas e referências às ficções científicas utilizadas na trama de Bacurau. Vejamos agora o caso mais destacado da história em que a relação entre CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) e o Ensino está evidente na obra. Durante a exibição do filme percebe-se inúmeros e potenciais debates envolvendo a complexa e rica história, em especial o que se relaciona diretamente às tecnologias que passeiam pelos ambientes de Bacurau, o conhecimento científico como essencial na produção destas tecnologias e tudo acerca da sociedade envolvida no seu processo e como ponto de alcance.
No âmbito da educação científica, como eixo central da participação democrática em práticas educativas e como superação da “cultura do silêncio” (FREIRE, 2005) numa prática dialógica, nota-se nesta cena um destaque crítico à necessidade de um maior engajamento dos estudantes na sala de aula, de maneira ativa em processos mais ampliados de participação, num ato de despertar para o foco na problematização e tentativa de modificação destas situações vivenciadas. Com isso, Freire enfatiza o potencial de propósito educacional a saída dos sujeitos de sua condição silenciada e passiva para uma postura crítica, de diálogo e numa busca pela transformação da sociedade.
Conforme descreve Álvaro Chrispino (CHRISPINO, 2013), a abordagem CTS realiza uma proposta de trabalhar a realidade, fornecendo instrumentos a eles para uma maior interação com esta mesma realidade e tornando-os hábeis para modifica-las a partir das suas reflexões ou decisões em coletivos, não esperando que a Abordagem CTS seja mais uma técnica didática, mas uma cultura que se manifesta na prática. Assim, vivenciarão a Ciência, a Tecnologia e a Sociedade pela ótica do conhecimento, das habilidades a desenvolver e atitudes, numa maneira de abordagem do currículo escolar e de posicionar-se frente ao mundo que o cerca dentro de uma Educação CTS, numa forma de apresentar, organizar e multiplicar os conhecimentos.


Bom Filme e Bons Estudos!

BIBLIOGRAFIA:
FREIRE, P.Pedagogia do Oprimido.48.ed.Rio de Janeiro:Paz e Terra, 20025.
STRIEDER, R.B.; ROSA, S.E.;Dimensões da Democratização da Ciência-Tecnologia no Âmbito da Educação CTS;Revista Insignare Scientia, Vol.1,No2,Maio-Agosto/2018.
CHRISPINO, A. Introdução Ao Enfoque Ciência, Tecnologia e Sociedade na Educação e No Ensino.Mimeo,2013,13pp.

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