Arrogância

Charge-Desigualdades sociais - Adaptação da charge do Duke. Acesso em: https://br.pinterest.com/pin/483714816221356221/

Em meio a situação ao caos que vivemos com a chegada do COVID-19, pensei inúmeras vezes como eu poderia contribuir falando de Ciência, Tecnologia e Sociedade. Não por falta de assunto, mas pelo excesso de informações que temos recebido nos últimos dias. Acabei me pegando pensando no assunto do "cientista arrogante", algo que se não me falhe a memória, discutimos no último dia de aula da disciplina. Algumas vezes temos dificuldades de fazer correlações diretas da sociedade com a Ciência e a tecnologia, mas em momento como esse fica extremamente fácil. Todos nós estamos nas mãos da Ciência e contando com ela e suas tecnologias pra nos proteger, informar e até salvar. Afinal, "nada como uma ameaça de morte generalizada para reestabelecer a autoridade da Ciência sobre os fatos e seus desdobramentos" (Gustavo Lins Ribeiro, UnB). Essa foi uma das frases que vi circulando pela internet esses dias e realmente, quem diria que o Brasil, que ainda pouco chamava seus cientistas e servidores públicos de parasitas e eram totalmente desprezados pelo governo, estaria na mãos dos mesmos. Podemos ver mestrandos e doutorandos, que recentemente sofreram com corte de suas bolsas, pesquisando incessantemente nas universidades para fazer descobertas extremamente necessárias, as mesma universidades que são constamente atacadas e cada vez mais sucateadas pelo des"governo" atual. Tendo noção da gigante importância do que foi dido ateriormente, em meio a tudo isso me chamou atenção foram algumas frases da comunidade científica atacando diretamente instituições como as igrejas. "A verdade vem à tona quando a igreja universal cancela as sessões de cura coletiva por conta de uma doença." Não sei exatamente quem escreveu essa frase, mas recebi de um professor e biólogo, talvez ela traga doses de verdades dolorosas, mas o que eu me questiono é se em um momento que a igreja se rende, suspende suas as suas atividades e segue as orientações da Ciência, será que existe necessidade de nós da comunidade científica os atacarmos diretamente com tanto desprezo? Não seria esse o momento de aproveitamos a alta da Ciência pra mostrar que não estamos preocupados em invalidar as crenças de ninguém mas que temos nosso valor e que somos fruto de algo concreto, então precisamos sim ser respeitados e ouvidos?
Questionado isso, outra situação que me veio à tona sobre a nossa arrogância enquanto cientistas é como essa situação é assustadora, um verdadeiro choque de realidade sobre a miséria que as pessoas vivem no Brasil. É a desigualdade social sendo esfregada na nossa cara. É ver alguns de nossos amigos e familiares reclamando por terem que ficar em casa e ficar pensando em quem não tem casa, não tem onde ir ao banheiro pra se quer lavar aos mãos. É ver pessoas em situação de favela com mais de 15 dias sem água em suas residências, além da maiorias das casas serem muito pequenas para a quantidade de pessoas que ali residem. É ver as pessoas morrendo de fome por não receberem as migalhas e esmolas que os mantem vivos. E aonde está a ciência nisso tudo ? Também podemos ajudar a salva-los? De que forma nossas pesquisas alcançam essas pessoas? Como falar de Ciência para alguém que não tem o que comer ou onde morar?
Apesar de tudo, acredito que não temos culpa de sermos privilegiados, mas assumir um compromisso com realidade do país é fundamental. Dessa forma eu só desejo que gente saiba usar o lugar do privilégio para falar sobre e atuar junto com os que não tem privilégio. Que as nossas pesquisas saiam também das quatro paredes e cheguem as comunidades, que a ciência, a tecnologia estejam presentes para sociedade como um todo, para assim conseguirmos democratizar mais o conhecimento. 

Aline Rodrigues

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