O mundo nunca será o mesmo



Atlanta em quarentena por coronavírus tem semelhança assustadora ...
Atlanta, Estados Unidos na série The Walking Dead e em 2020.

“Após o coronavírus, o mundo não voltará a ser o que era”. Essa foi uma das frases citadas pelo biólogo Átila Iamarino em sua participação no programa Roda Vida do dia 30 de março de 2020 na Tv Cultura em referência as mudanças causadas pelo COVID-19.
A pandemia de coronavírus promoveu sérias mudanças na rotina de toda população em torno do globo. Escolas fechadas, eventos foram cancelados, jogos suspensos, fabricas fechadas interrompendo toda a produção, aviões sem poder voar e parte da população necessitando fazer isolamento social com o intuito de conter o alto contagio do vírus.
Realmente é uma mudança brusca em uma sociedade que não está acostumada a desacelerar e que ao meu ver não estava preparada para um evento dessa magnitude, apesar de já termos passado por crises parecidas. Agora é preciso se adaptar, mesmo que de maneira forçada a uma nova rotina e mudanças de hábitos possivelmente ao longo de vários meses.
Enquanto o isolamento social é recomendado para o achatamento da curva de contagio com a finalidade de minimizar a superlotação dos hospitais, pesquisadores em todo globo correm contra o tempo buscando entender a ação do vírus, potencialidades, taxas de mortalidade, mutação, suas sequelas futuras e os impactos que podem trazer a sociedade e a economia. Buscam ainda a produção de vacinas, promovendo quase que uma guerra fria entre grandes potências mundiais como China e Estados Unidos para saber quem encontrará a cura primeiro.
A crise provocada pelo COVID-19 revelou ainda a fragilidade dos sistemas de saúde no mundo. No Estados Unidos, por exemplo, com seus planos de saúde privados ficou escancarado que somente quem pode pagar, receberá atendimento. Em uma pesquisa publicada pela Business Insider, revelou que 27 milhões de norte-americanos não possuem plano de saúde e mesmo os que possuem podem ser cobrados adicionais somente por irem se consultar, colaborando assim para que metade da população norte-americana não tenha condições de pagar pelo simples diagnostico de coronavírus, que variam de 441 a 1.151 dólares. Pacientes que poderiam acionar seus planos de saúde acabam evitando ir ao médico com o medo de se endividar e em alguns casos até falir. Como o caso de Frank Wucinski e sua filha de 3 anos que foram forçados a ficar em quarentena ao retornar aos EUA e mesmo não diagnosticados com COVID-19, no final do período de quarentena receberam uma conta no valor de 4 mil dólares de encargos hospitalares, médicos, radiologistas e ambulâncias.
Mesmo em uma potência mundial como os EUA, que investe pesado em ciência, sendo 60% dos recursos oriundos do governo, nota-se que ela não é democrática. Mesmo com o dinheiro da população investido em pesquisas, só tem acesso quem pode pagar e paga alto sendo os principais beneficiários as grandes empresas, seja por meio dos planos de saúde ou patentes.
Países como o Brasil, são dependentes de inovações cientificas e tecnológicas vindas das grandes potencias. Nossa pesquisa por meio de universidades publicas vem a anos sendo sucateadas e sofrendo duros golpes, contribuindo ainda mais para essa dependência. Em meio a pandemia de coronavírus, por exemplo, uma “canetada” foi capaz de “redistribuir” bolsas de pesquisas deixando pesquisadores (inclusive os que trabalham no combate ao COVID-19) de mãos atadas e simplesmente interrompendo suas pesquisas. Além disso o distanciamento do publico em geral com a ciência colaboram para a replicação e distribuição sem precedentes de fake news, onde cientistas acabam ignorados e desacreditados.
Certamente a vacina será desenvolvida daqui alguns meses, resta saber se todos terão acesso ou se haverá restrições. Grandes empresas e patentes serão obstáculos para distribuição? Será que conseguiremos reaproximar a ciência da população. O futuro dirá. O mundo está em mudança e necessitamos repensar os sistemas estabelecidos atualmente. Lições importantes podem ser tiradas após o caos do coronavírus e ajustes podem ser realizados ou simplesmente podemos ignorar tudo o que estamos vivendo e voltar à normalidade. Cabe a sociedade escolher.

Márcio Mendes

Atila Iamarino: ‘Após o coronavírus, o mundo não voltará a ser o que era’. Disponível em: <https://www.redebrasilatual.com.br/saude-e-ciencia/2020/03/atila-iamarino-apos-o-coronavirus-o-mundo-nao-voltara-a-ser-o-que-era/>. Acesso em 01 de abril de 2020.

Ciência e Tecnologia frente à pandemia. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/cts/pt/central-de-conteudo/artigos/artigos/182-corona>. Acesso em 30 de março de 2020.

Coronavírus: pacientes pagam custos de quarentena forçada pelo governo dos EUA. Disponível em:  <https://jornalggn.com.br/coronavirus/coronavirus-pacientes-pagam-custos-de-quarentena-forcada-pelo-governo-dos-eua/>. Acesso em 01 de abril de 2020.

Dose de Ciência: UFF propõe democratização do conhecimento científico. Disponível em: <http://www.uff.br/?q=noticias/23-10-2017/dose-de-ciencia-uff-propoe-democratizacao-do-conhecimento-cientifico>. Acesso em 01 de abril de 2020.

L’epidemia ai tempi dell’Antropocene. L’emergenza coronavirus può insegnarci ad affrontare quella vera: il clima. Disponível em: <https://it.businessinsider.com/lepidemia-ai-tempi-dellantropocene-lemergenza-coronavirus-puo-insegnarci-ad-affrontare-quella-vera-il-clima/>. Acesso em 30 de março de 2020.

Nos países desenvolvidos, o dinheiro que financia a ciência na universidade é público. Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/nos-paises-desenvolvidos-o-dinheiro-que-financia-a-ciencia-e-publico/. Acesso em 01 de abril de 2020.

Pandemia nos ensina que sem ciência não há futuro. Disponível em: <https://jornal.usp.br/artigos/pandemia-nos-ensina-que-sem-ciencia-nao-ha-futuro/>. Acesso em 01 de abril de 2020.

Pesquisa diz que metade dos EUA não pode pagar diagnóstico de coronavírus. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/03/12/pesquisa-diz-que-metade-dos-eua-nao-pode-pagar-diagnostico-de-coronavirus.htm?cmpid=copiaecola>. Acesso em 30 de março de 2020.


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