Resenha sobre o caso Unabomber e a sua relação com Ciência, Tecnologia e Sociedade
O
caso Unabomber, foi uma história real que teve início em 1978 nos Estados Unidos, seu
desfecho se deu apenas 17 anos depois, com a prisão de Theodore Kaczynski,
em 1995. Segundo o FBI (Federal Bureau of Investigation), esse caso foi considerado
o mais longo e caro da história da agência. Tendo uma repercussão mundial, a
história do Unabomber foi retratada em diversos livros, em 2017 foi produzida
uma minissérie pela Discovery, que está disponível na Netflix. O
presente texto propõe-se a fazer uma resenha sobre o caso Unabomber,
baseado na série Manhunt: Unabomber e relacionar
ao tema Ciência, Tecnologia e sociedade.
Entre
os anos de 1978 e 1995, Theodore Kaczynski enviou um total de 16
correspondências anexadas à dispositivos explosivos para diversas cidades do
território americano, fazendo três vítimas fatais e deixando cerca de 23 com
lesões gravíssimas. Os explosivos eram enviados pelas agências de correio e
eram muito sofisticados. O FBI só assumiu o caso após o atentado ao voo
444 da American Airlines, em novembro de 1979, pois se tratava de
um crime federal. Nesse caso, uma bomba foi colocada no compartimento de carga de
um Boeing 727, forçando os pilotos a fazer um pouso de emergência.
Apesar da gravidade do atentado, ele não deixou nenhuma vítima, pois a bomba
foi programada para explodir em baixa altitude.
Em
1980 uma bomba foi enviada ao presidente da United Airlines, em 1985
outro avião foi alvo do terrorista. Além das companhias aéreas, o terrorista enviou
seus explosivos a diversas Universidades, professores de Ciências da computação,
engenharia, lojas de computação, lojas de materiais eletrônicos, entre outras,
fazendo dezenas de vítimas. As bombas eram tão sofisticadas e os crimes eram
tão bem executados que o criminoso não deixava impressões digitais ou material
genético, a única informação que se tinha, era sua “assinatura” ( como é
chamada a marca registrada que os Assassinos em Série deixam na cena do crime)
gravada em partes indestrutíveis das bombas, com a sigla F.C (Freedom Club).
Na
época em que ocorreram os atentados, as análises comportamentais e os perfis
psicológicos não eram “bem vistos” pelos investigadores, sendo utilizados apenas
como último recurso, já que muitos investigadores diziam que tais métodos
seriam apenas suposições e não tinham valor probatório, pois não eram
consideradas evidências forenses. Entretanto, através de um perfil psicológico,
os investigadores poderiam determinar os motivos dos crimes, traçar um perfil
de futuras vítimas ou ter alguma pista de um possível suspeito. Como ao longo de
17 anos não havia nenhuma pista sobre o terrorista, centenas de perfis
psicológicos e comportamentais foram traçados sem muitos resultados. O FBI não
via similaridades entre as vítimas, acreditando que elas eram escolhidas
aleatoriamente. Como as companhias aéreas eram alvos frequente e as técnicas de
soldagem utilizadas nas bombas eram semelhantes a as utilizadas por mecânicos
de aeronaves, as investigações foram direcionadas a um determinado perfil, que foi
utilizado durante 10 anos pelo FBI.
O
perfil traçado apontava que o suspeito tinha entre 20-30 anos, possivelmente um
mecânico ou técnico de aeronaves, sem curso superior, de baixa inteligência, e que morava
em Ohio, Cleveland ou Cincinnat. Os seus atentados a empresas aéreas eram motivados
por vingança, por conta uma possível demissão. Já os atentados às universidades, poderia ser ressentimento,
por nunca ter conseguido ingressar em uma delas. Em 1995, quando o agente Jim
Fitzgerald ingressou na força tarefa do caso Unabomber, o perfil comportamental
do suspeito foi refeito, já que haviam muitas incongruências no perfil
anterior, como por exemplo o nível intelectual do suspeito. Para Fitzgerald,
ele tinha uma inteligência fora do comum, pois demonstrava isso na fabricação precisa
das bombas e pelo fato de não deixar uma única pista para o FBI em 17 anos. Além
disso, o comportamento dele era diferente de qualquer outro Serial Killer,
pois ele não via as vítimas como “troféus”, ou seja, não tinha prazer no
ferimento ou morte delas. Sendo assim, ele tinha uma filosofia própria e o seu
principal objetivo era o de “enviar uma mensagem” a sociedade, independente das
consequências de seus atos.
No
mesmo ano em que o agente Fitzgerald ingressou na força tarefa, o jornal The
New York Times recebeu uma encomenda com um texto datilografado de 56
páginas, de Autoria F.C. O texto intitulado: “A Sociedade Industrial e seu
Futuro” que foi chamado pela mídia de “o
Manifesto do Unabomber”. A partir do manifesto, o agente Fitzgerald
obteve valiosas informações. Através de uma metodologia desenvolvida por ele
mesmo, a linguística forense, foi possível analisar o padrão da escrita do
autor, como por exemplo, a linguagem utilizada, se era uma linguagem culta ou
informal, se ele utilizava palavras, ou referências geracionais, ou seja,
termos que são utilizados de acordo com a faixa etária da pessoa. Além disso,
foi observado a forma de se expressar através da escrita, tipo de formatação entre
diversos outros critérios. Através dessas informações foi possível refazer um
perfil mais preciso e detalhado sobre o suspeito. O novo perfil apontava que o
suspeito tinha no mínimo 50 anos de idade; cresceu próximo a Chicago (por causa
da utilização de palavras e gírias regionais que foram encontradas no textos). A
formatação utilizada no manifesto era bem incomum, porem haviam indícios de que o mesmo tipo de formatação era utilizado em
teses de Ph.D e que havia entrado em desuso, mostrando que ele
tinha uma elevada formação acadêmica.
Pouco
tempo depois do aparecimento do Manifesto, o Unabomber enviou uma carta ao
FBI sugerindo um acordo. Caso o seu manifesto fosse publicado em jornais
renomados como o Times ou Washington Post, ele iria parar com os
atentados, caso não fosse publicado ele continuaria fazendo novas vítimas. Por
conta da repercussão na mídia, inicialmente, o FBI não quis ceder as ameaças de
um terrorista, porém uma das estratégias do Fitzgerald, era publicar o
manifesto para que algum colega de faculdade, ou familiar pudesse reconhecer a
forma de escrever ou os ideais descritos em seu texto. E foi exatamente o que
aconteceu, os policiais conseguiram chegar ao Theodore Kaczynski, pois
seu irmão David Kaczynski, viu a publicação do manifesto e entrou em contato
com o FBI, na esperança de realizar um acordo. Ele iria colaborar com a
investigação, entregando diversos documentos do seu irmão à polícia na condição
de excluir uma possível pena de morte.
Todas
as informações fornecidas pela família Theodore Kaczynski estavam de acordo com
o perfil traçado por Fitzgerald. Theodore Kaczynski cresceu em Chicago, terminou
ensino médio aos 16 anos, com a mesma idade ingressou na Universidade de
Harvard e obteve diploma de bacharel em Artes. Em 1962, Kaczynski ingressou na Universidade de Michigan, e em 1968 aos 25
anos, obteve o título de Ph.D em Matemática, sua tese era tão avançada que
ganhou diversos prêmios e poucos matemáticos no mundo conseguiram compreendê-la.
Theodore Kaczynski possuía um Q.I de 167 pontos, sendo considerado um gênio, já
que, a superdotação é acima de 130. Aos 25 anos, ele foi
o professor mais jovem a lecionar na Universidade da California, Berkeley, onde
ficou por dois anos, e depois se mudou para Montana, onde viveu isolado
da sociedade em uma cabana de 8 m², sem luz, água corrente, ou qualquer tipo de
tecnologia, com exceção de uma máquina de escrever e os matérias para
fabricação das bombas. Kaczynski foi preso em 1995 e foi condenado a quatro prisões
perpétuas.
Com
a publicação do Manifesto, os ideais de Kaczynski ficaram claros, seus
atentados eram uma forma de protesto ao modo em que a sociedade estava vivendo,
tornando-se cada vez mais dependente das tecnologias, ou seja, escravos de suas
próprias invenções. No primeiro parágrafo do seu Manifesto ele diz:
“A Revolução Industrial e suas consequências
foram um desastre para a raça humana. Aumentou enormemente a expectativa de
vida daqueles que vivem em países «avançados», mas desestabilizou a
sociedade, tornou a vida um inferno, submeteu seres humanos a indignidades,
provocou sofrimento psicológico (no terceiro mundo sofrimento
físico) e infligiu um dano severo ao mundo natural. O contínuo desenvolvimento da
tecnologia piorará a situação. Certamente submeterá os seres humanos
a grandes indignidades e infligirá maior dano ao mundo natural,
provavelmente conduzirá a um grande colapso social e sofrimento psicológico, e pode
incrementar o sofrimento físico
inclusive em países «avançados»”.
Theodore Kaczynski manifesta
também em seu texto o desprezo contra os movimentos esquerdistas, afirmando que
a esquerda só se mostra contra a tecnologia quando não está no poder, e quando
ela o assume, passa a incentivar os mesmos avanços tecnológicos. Assumindo um
posicionamento Anarquista, ele afirma que apenas uma reforma não bastaria para romper
com este modelo de progresso. Sendo assim, a única forma de resolver essa
situação, seria através de uma revolução, já que para ele: “Um movimento reformista meramente
tenta resolver um problema social em particular. Um movimento revolucionário
tenta resolver todos os problemas com um só golpe e criar um novo mundo”. Sua
fala e seu posicionamento radical condizem com a forma adotada para manifestar sua indignação com o
sistema, que seria enviando bombas para pessoas que tinham alguma ligação com
tecnologias, o que explica a maior parte de suas vítimas, as companhias aéreas
e cientistas de diversas universidades.
O
caso Unabomber nos mostra que o limiar entre a genialidade e a loucura é
muito tênue, apesar de Theodore Kaczynski ter vivido à frente do seu tempo, com
previsões e preocupações muito relevantes e atuais, sua forma de lidar com a situação
foi completamente inapropriada. Porém, é notável a complexidade de se encontrar
uma forma de romper com capitalismo, sistema no qual, sustenta todo esse
desenvolvimento tecnológico, dito progressista e humanitário. Sabe-se que muitas
tecnologias beneficiam uma pequena parcela da sociedade, em contra partida,
prejudicam uma grande parcela.
Para se distrair nesses tempos de quarentena, sugiro que assistam a série Manhunt: Unabomber na Netflix ( Apesar dos Spoilers rs), e sugiro também a leitura do Manifesto "A Sociedade Industrial e seu Futuro" o link encontra-se nas referências. Tem a versão em inglês e a traduzida!
Para se distrair nesses tempos de quarentena, sugiro que assistam a série Manhunt: Unabomber na Netflix ( Apesar dos Spoilers rs), e sugiro também a leitura do Manifesto "A Sociedade Industrial e seu Futuro" o link encontra-se nas referências. Tem a versão em inglês e a traduzida!
Referências
http://lelivros.love/book/baixar-livro-serial-killer-louco-ou-cruel-ilana-casoy-em-pdf-epub-mobi-ou-ler-online/
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